Alunos de escola pública no interior de SP criam jogos de tabuleiro com IA para aprender história
29/09/2026
(Foto: Reprodução) Alunos de escola pública de SP criam jogos de tabuleiro com IA para aprender história
🎲 Alunos do 7º ano da EMEF Coronel Esmédio, em Porto Feliz (SP), transformaram conteúdos de história em jogos de tabuleiro com apoio da inteligência artificial. A iniciativa, criada pelo professor Carlos Cavalheiro, levou os estudantes a desenvolver regras, perguntas, desafios e identidade visual para os jogos, unindo aprendizado e criatividade em sala de aula.
Segundo a neuropsicóloga Andrielle de Carvalho Viana, de Sorocaba (SP), esse tipo de atividade traz inúmeros benefícios para a faixa etária. Além de ajudar na memorização de fatos históricos, a prática auxilia os jovens a exercitar o planejamento, a tomada de decisão e o controle de impulsos, funções que ainda estão em desenvolvimento no cérebro dos pré-adolescentes.
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Professor de história desenvolveu atividade com a criação de um jogo de tabuleiro em Porto Feliz (SP)
Carlos Cavalheiro/Arquivo pessoal
Os trabalhos foram apresentados em 17 de setembro, como parte de uma proposta pedagógica que uniu aprendizado histórico, criatividade, trabalho coletivo e a utilização consciente de recursos de IA. Os temas estudados para a atividade envolveram a colonização inglesa e portuguesa na América.
O professor contou ao g1 que, durante o bimestre, os estudantes desenvolveram não apenas a dinâmica dos jogos, mas também os tabuleiros, as cartas, as perguntas, os desafios e as regras.
Alguns dos projetos tiveram inspiração em jogos que já existem; porém, de acordo com a criatividade de cada grupo, alguns trabalhos foram bastante originais, criando, de fato, jogos novos.
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Foram elaborados dois jogos: o “Colonização do Brasil - História, Estratégia e Conquistas”, estruturado sobre um mapa do território colonial, e o “Araritaguaba”, que utiliza uma representação cartográfica e elementos relacionados à história da colonização portuguesa.
De acordo com Carlos, a experiência permitiu trabalhar, simultaneamente, diferentes dimensões do aprendizado: conhecimento histórico, pesquisa, interpretação, criatividade, planejamento, cooperação, comunicação e cultura digital.
Professor Carlos Cavalheiro, de Porto Feliz (SP)
Arquivo Pessoal
🤖 Uso consciente da IA
Carlos enfatizou que a IA foi usada de forma consciente, sem fornecer informações prontas, substituir o conhecimento adquirido pelos alunos ou desestimular a criatividade. Os assuntos abordados foram a colonização das américas inglesa e portuguesa, além da resistência e escravização indígena.
"Os alunos se dividiram em grupos e escolheram o formato do jogo (tabuleiro, cartas ou RPG) e o tema a ser trabalhado. A ideia do projeto surgiu da necessidade de mostrar a IA como uma ferramenta para ajudar na concretização de algo criado pelos próprios estudantes. (...) Neste caso, ela foi usada apenas para formatar uma ideia gestada nas discussões em sala de aula", disse o professor.
Alunos de escola de Porto Feliz (SP) criaram jogos de tabuleiro com ajuda de IA para aprender história
Carlos Cavalheiro/Arquivo pessoal
Com mais de 20 anos de experiência na educação, Carlos ressalta que a forma de ensinar mudou ao longo do tempo. Por isso, os docentes precisam levar cada vez mais inovações para a sala de aula, a fim de manter o interesse dos alunos.
"Esse trabalho de criação de jogos, por exemplo, é uma releitura de um projeto realizado há mais de dez anos. Naquela época, o acesso à IA generativa não era uma realidade. Agora, como é uma ferramenta amplamente disponível, creio que seja importante orientar os estudantes sobre o melhor uso dela, sempre levando em consideração o protagonismo humano", afirmou.
Para o educador, a melhor orientação foi uma conversa franca, mostrando a necessidade de ultrapassar a linha do comum. Afinal, pedir para a IA criar um jogo não exige qualificação, mas utilizá-la como ferramenta para dar forma a um conteúdo humano garante o desenvolvimento de habilidades essenciais para a formação dos estudantes.
"O ponto crucial é a conversa sincera com os alunos, mostrando a vantagem de ter o domínio sobre a criação e de usar a IA de maneira adequada. O papel do educador é mediar o conhecimento, e não afastar os estudantes da realidade do dia a dia. A IA é uma realidade e já vem sendo usada por eles. Por que não orientá-los para o melhor uso dessa tecnologia?", pontuou.
Alunos jogando jogo de tabuleiro feito em sala de aula em Porto Feliz (SP)
Carlos Cavalheiro/Arquivo pessoal
📚 Benefícios para o desenvolvimento de adolescentes
A neuropsicóloga Andrielle de Carvalho Viana explica que esse tipo de atividade contribui para o desenvolvimento de habilidades cognitivas importantes na pré-adolescência, especificamente entre os 11 e 13 anos, quando o córtex pré-frontal está em intenso processo de maturação.
"É a região que sustenta as funções executivas: planejamento, memória operacional, controle inibitório e flexibilidade cognitiva. Um jogo de estratégia, em que o aluno precisa administrar orçamento, população e território, exige que ele antecipe consequências, mantenha várias informações em mente e ajuste suas decisões conforme a dinâmica muda. Na prática, ele está treinando essas funções enquanto aprende história", destacou a especialista.
Andrielle Conceição de Carvalho Viana, neuropsicóloga de Sorocaba (SP)
Arquivo pessoal
A neuropsicóloga destaca outro ponto importante para os jovens dessa idade: o sistema de recompensa. Segundo Andrielle, na pré-adolescência, os circuitos dopaminérgicos ligados à motivação estão especialmente ativos. O desafio e a conquista de objetivos no jogo mantêm a atenção sustentada por muito mais tempo do que em uma aula tradicional.
Além da diversão e do aprendizado em conjunto, há um ganho direto na memória. Experiências com envolvimento emocional são consolidadas com mais eficiência por meio da interação entre a amígdala e o hipocampo, estruturas cerebrais que trabalham juntas para conectar memórias e emoções.
"Somado a isso, o jogo oferece codificação multimodal: o aluno vê o mapa, manipula as peças e conversa com os colegas. Quanto mais canais sensoriais envolvidos, mais rotas o cérebro tem para recuperar aquela informação depois. O componente social também é fundamental nessa faixa etária", explicou Andrielle.
Por fim, a especialista reforça que o jogo potencializa o aprendizado, mas não substitui a mediação do professor. "A reflexão depois da partida é o que transforma a experiência em conhecimento. O uso da inteligência artificial é interessante justamente por isso: ela facilita a criação do material, mas o valor pedagógico está no desenho da atividade e na condução em sala de aula."
Alunos usaram conteúdo aprendido em sala de aula para jogos de tabuleiro em Porto Feliz (SP)
Carlos Cavalheiro/Arquivo pessoal
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