Criado 12 anos antes de acidente radioativo com Césio-137, 'lixo' atômico no interior de SP revoltou moradores e segue armazenado

  • 08/04/2026
(Foto: Reprodução)
Imagem atual do local onde material conhecido como 'lixo atômico' está estocado em Itu (SP) Marcel Scinocca/g1 Mais de uma década antes do maior acidente radioativo do Brasil, o caso do Césio-137, em Goiás, que deixou quatro mortos oficialmente, um movimento silencioso de caminhões já chamava a atenção em um sítio em Itu, a cerca de 100 quilômetros de São Paulo. De forma discreta, toneladas de resíduo radioativo, proveniente do tratamento químico do minério de monazita, eram estocados no local, sem regulamentação ou qualquer conhecimento do poder público local. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Na época, a situação só veio à tona após despertar a suspeita de uma professora. Com a repercussão, a estocagem, então ao relento, passou a ser guardada de forma protegida e regulamentada. Ainda assim, o caso foi denunciado e se tornou alvo de polêmica, medo e uma preocupação constante que já atravessa décadas. “Uma professora de escola rural notou e estranhou aquele produto exposto. Ela levou o assunto ao conhecimento dos vereadores. E o tema ganhou dimensão, com o Jornal Nacional dando manchete”, relembra Lázaro Piunti, prefeito da cidade à época do armazenamento, que diz que sequer foi consultado sobre a guarda do material no quintal que ele administrava. “O depósito do lixo atômico foi construído em sigilo na área rural de Itu, com jurisdição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), escapando da ação do município. Fosse na área urbana eu teria negado a aprovação. Na esfera rural a Cnen não precisava dar satisfação ao governo local”, afirma o ex-prefeito. Mobilizações Material radioativo está estocado em Itu (SP) desde a década de 1970 Reprodução/TV TEM O local passou a ser alvo de protestos e também de mobilizações. Várias manifestações chegaram a ocorrer em Itu, algumas no ponto do armazenamento, com a presença de crianças, professores e movimentos criados na cidade. Em uma das ocasiões, o espaço chegou a ser tomado por manifestantes, para ser “vistoriado”. “Fui várias vezes ao local sendo impedido de ter acesso. Quando prefeito organizamos uma reunião popular e tivemos acesso. Até o delegado Romeu Tuma me ligou ponderando do perigo do acesso da multidão. Como fui firme e incisivo, ele de forma diplomática, porém, não escondendo desconforto, disse que eu seria responsável pela segurança das pessoas. Eu disse que a insegurança estava naquele material exposto e quanto ao povo a manifestação seria pacífica”, conta. LEIA TAMBÉM: Voluntários oferecem companhia e aliviam solidão de pacientes em unidades de saúde: 'Marca nossa vida' O sofrimento silencioso: mulheres relatam solidão e falta de informação em casos de aborto em Sorocaba Atores do interior de SP participam de minissérie que relata acidente com Césio-137: 'Experiência muito especial' Ao retornar à prefeitura - ele governou a cidade por quatro mandatos não consecutivos - o ex-prefeito chegou a ir a Brasília, onde foi recebido pelo então presidente José Sarney e pelo ministro das Minas e Energia, Aureliano Chaves. Com isso, houve, segundo ele, a criação de uma comissão tripartite envolvendo União, Estado e município. “Todos esses organismos posteriormente se ausentaram e a Cetesb foi posta de escanteio”, reclama. O que inicialmente seria algo temporário, passou a não ter prazo para ser removido e recebeu, dos moradores da região, o nome de "lixo atômico", que foi estocado de forma clandestina. O material já está estocado há pelo menos 50 anos. Lázaro Piunti também fez um paralelo com projeto da Marinha do Brasil, em Iperó: “Deslocar os resíduos do bairro de Santo Amaro para Itu leva a crer existir um vínculo com o projeto Aramar - apenas 40 km distante de Itu. É preciso que nos situemos no tempo. Brasil e Alemanha (Geisel) celebraram acordo de desenvolvimento nuclear. Criou-se o Projeto Aramar." Depósito de 'lixo' atômico em Itu (SP) provocou revolta em moradores Acervo Família Piunti O que está estocado No terreno, estão armazenadas 3,5 mil toneladas de Torta 2, um resíduo radioativo, proveniente do tratamento químico do minério da monazita (entenda o que é). O material, segundo as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), é considerado de baixa radioatividade e precisa ser estocado seguindo normas de segurança. O produto que foi armazenado no Sítio São Bento, entre 1975 e 1981, fica dentro de sete silos, que são grandes depósitos em forma de piscinas retangulares, construídas em concreto, com paredes de 20 centímetros de espessura e superfícies internas impermeabilizadas. O mesmo material que está estocado no Botuxim, bairro que fica a cerca de 30 quilômetros do Centro de Itu, também está depositado em outras duas unidades da empresa federal, na capital paulista e em Caldas (MG). Material conhecido como 'lixo atômico' está estocado em três locais, sendo dois em São Paulo e um em Minais Gerais Paulo Gaspar/TV TEM/Arquivo Tentativas de venda Em 2013, a INB tentou vender o material e fez um contrato com uma empresa chinesa. Uma audiência pública realizada em Itu debateu sobre a segurança do material no local e também sobre a transferência dos resíduos para a China, que teria comprado todo o material (das três unidades) por R$ 65 milhões, mas isso nunca aconteceu, pois a empresa não obteve as licenças ambientais para receber esse material na China. Em junho de 2024, no entanto, a INB publicou um novo edital de oferta pública para vender todo o material armazenado em Itu, São Paulo e Caldas (MG). Também em 2024, o g1 foi até Botuxim para verificar a situação do "lixo". Conforme a INB, o material foi depositado a granel, sem o uso de galões, como é feito com o material estocado em Minas Gerais. Estes silos, em Itu, ocupam aproximadamente 800 m² e uma área isolada de 20 mil m², que fica dentro de um sítio que tem área total de aproximadamente 300 mil m². Sítio no interior de SP armazena 'lixo atômico' há quase 50 anos Em 2021, houve movimentações do município para impedir que o material depositado no bairro Interlagos, na capital, fosse transferido para Itu. A monazita, segundo a INB, é um mineral natural encontrado ao longo da costa brasileira, principalmente entre a região norte do estado do RJ e o sul da Bahia. Os produtos desse mineral eram utilizados para produzir catalisadores, vidros especiais e ligas metálicas especiais como, por exemplo, o cristal de neodímio que gera o laser utilizado em cirurgias oftálmicas. Conforme a INB, material está estocado a granel em sítio de Itu (SP) Reprodução/TV TEM Clandestino Em entrevista à TV TEM, em 2013, o ex-prefeito de Itu, Lázaro Piunti, afirmou que o material foi estocado na cidade de forma clandestina. "Foi descoberto em 1979. Eu não era mais prefeito. Ele [material radioativo] havia sido colocado clandestinamente, em 75, na zona rural (...) E foi em 75, que eu era prefeito. Então, foi uma agressão à autonomia do município", afirmou. Lázaro Piunti era prefeito de Itu, em 1975, quando o material começou a ser armazenado, e disse, em 2013, que material foi levado ao local de forma clandestina TV TEM/Arquivo De acordo com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), atualmente o local passa por um processo de regularização, por meio de licenciamento corretivo. "A Cnen, na forma da lei, exerce o controle regulatório sobre a Unidade de Estocagem de Botuxim, para garantir a segurança nuclear e proteção radiológica dos trabalhadores, do público e do meio ambiente. Importante salientar que, embora seja uma instalação fiscalizada pela CNEN, a unidade foi construída em época anterior às etapas de licenciamento atualmente existentes, portanto, um licenciamento corretivo vem sendo implementado ao longo dos anos", afirma a comissão. Muro protege material radiativo estocado em sítio de Itu (SP) Marcel Scinocca/g1 Quem monitora o material? O monitoramento do material é de responsabilidade da INB, pelo Programa de Monitoração Radiológica Ambiental, que "prevê a monitoração de exposição à radiação ionizante, coleta de água de chuva, coleta de água de superfície, água subterrânea, água potável e sedimento". Conforme a INB, as medições da radiação ionizante são feitas com um instrumento chamado dosímetro. Esses equipamentos estão instalados em 15 pontos distribuídos pela área. Além disso, a INB informou que também realiza o controle pluviométrico para monitorar o volume de chuva sobre a unidade e, com base nesse dado, faz uma avaliação para saber se alguma medida preventiva será necessária. Os dados são compilados em um relatório anual que também contempla a série histórica de resultados dos mesmos parâmetros para permitir a avaliação de tendência, que são enviados para cinco órgãos fiscalizadores. São eles: Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen); Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama); Secretaria de Meio Ambiente do Município de Itu (SMA-Itu); Defesa Civil do Município de Itu; Companhia Ituana de Saneamento (CIS). A poucos metros do sítio, existe um manancial. Embora o material esteja há quase 50 anos no terreno, a prefeitura afirmou à época que não havia indicativos de contaminação de áreas nos arredores do depósito, conforme relatórios fornecidos pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A INB informou que mantém com a Cnen o Programa de Coleta Conjunta de amostras de água e sedimentos, onde os dados são comparados nos relatórios anuais, e que os resultados demonstram que o depósito da INB não altera os níveis de radiação nos mananciais. Além disso, a Companhia Ituana de Saneamento também faz duas análises por ano em todos os mananciais, inclusive onde fica o depósito do Botuxim, e garantiu que ele não demonstra alterações ou irregularidades. O que diz a última análise da INB? Conforme um relatório publicado no site da INB, as análises realizadas nas águas superficiais da região e da represa, que abastece a Estação de Tratamento de Água Rancho Grande (Águas de Itu), mostram que a concentração de urânio está dentro do limite estipulado por órgãos federais para consumo humano. Os resultados, segundo a INB, demonstram que o depósito não altera os níveis de urânio nos mananciais. A INB afirma que os níveis de urânio ao longo do percurso são naturais - muito abaixo do limite do Ministério da Saúde (0,03 mg/L) para água de consumo e do limite do Conselho Nacional de Meio Ambiente - Conama (0,02 mg/L) para águas doces. Vida longa Pelas respostas, não há perigo. Contudo, o físico com pós-doutorado em energia nuclear no ambiente Paulo Massoni, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), adverte: "Se algum dos compartimentos estiverem danificados, pode sim 'vazar' radiação". "O urânio tem uma meia vida tão longa que, se fossem 100 anos de depósito dessas amostras, a atividade praticamente não mudaria. Mas depende do isótopo do urânio", completa. Ainda conforme o especialista, o ponto de maior atenção, a partir de agora, seria no transporte do material, em eventual venda. "Existe uma distância segura. Mas seria bom tomar cuidado com as colocações, já que irá a público", diz. Imagem antiga mostra placa indicando local de estocagem de 'lixo atômico' em Itu (SP) Acervo Família Piunti Em caso de vazamento, em uma eventual ruptura dos "containers", por exemplo, o problema seria maior. "Se vazar poderá contaminar solo, plantas e atmosfera. A blindagem é antiga e eu não sei o estado delas. Se for somente concreto, dentro de todos esses anos, qual a qualidade do concreto para contenção e etc. Tem que saber de todos os detalhes. O ideal é se, além do concreto, tivesse chumbo na blindagem." O especialista também explica o que pode ocorrer na eventualidade dessas duas situações se concretizarem. "Com relação à radiação, existe uma grandeza física chamada atividade. Se essa atividade for elevada, o tempo exposto a ela, poderá causar quebra da molécula de DNA humana ou mutação, levando a vários tipos de câncer, leucemia principalmente." O g1 questionou se o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que responde pelo licenciamento ambiental, já realizou alguma fiscalização no terreno e se acompanha a situação. O Ibama afirmou monitorar os cenários de risco previstos para os impactos ambientais associados à comercialização da Torta 2. Conforme o órgão, esses impactos são mais evidentes nas seguintes áreas: Meio físico: inclui as vias de acesso aos depósitos, o canteiro de obras necessário para a mobilização de maquinário e a produção de resíduos e rejeitos convencionais; Meio biológico: abrange a perturbação da fauna, supressão vegetal, compactação e processos erosivos do solo, além da qualidade da água da malha hidrográfica devido ao eventual aporte de material particulado e assoreamento; Aspectos socioeconômicos: referem-se à percepção de risco associado ao empreendimento nuclear pela população local. "Essas áreas são monitoradas para mitigar os impactos ambientais e garantir a segurança do meio ambiente e das comunidades envolvidas", explica. O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), que, nos anos de 1990, abriu um inquérito para investigar a situação, tendo arquivado posteriormente o procedimento, foi questionado sobre como acompanha a situação de Itu, mas não se manifestou. Unidade da INB, em São Paulo, onde parte da Torta 2 está estocada Reprodução/Google Street View Por que o material ainda está lá? A INB afirma que não realiza mais o processamento de monazita e que o material não tem mais utilidade para eles, mas que é um insumo estratégico para outros segmentos. O material que está em Itu foi avaliado em R$ 14,3 milhões, em 2013. A INB afirma que, atualmente, não há uma estimativa para o valor dele e que, agora, a empresa aguarda a apresentação de propostas de eventuais interessados na compra que "irão refletir a avaliação do mercado atual". Depósito de 'lixo' atômico em Itu (SP) provocou revolta em moradores Acervo Família Piunti INB coloca à venda mais de 15 mil toneladas de Torta 2 armazenadas em unidade desativada em MG Reprodução/EPTV Lixo radioativo depositado em Itu há mais de 30 anos será retirado em 2014 Unidade da INB, em Caldas (MG), onde a maior parte da Torta II está estocada Reprodução/Google Street View Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/04/08/criado-12-anos-antes-de-acidente-radioativo-com-cesio-137-lixo-atomico-no-interior-de-sp-revoltou-moradores-e-segue-armazenado.ghtml


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