Sem Itaquerão, poucos corredores de ônibus e metade das linhas de Metrô: como era São Paulo quando o Brasil levou o penta?
30/06/2026
(Foto: Reprodução) Como era São Paulo quando o Brasil levou o penta na Copa?
O dia 30 de junho de 2002 ficou marcado pela conquista do pentacampeonato do Brasil na Copa do Mundo. Passados exatos 24 anos da última vitória da Seleção Brasileira no torneio, muita coisa mudou, inclusive na cidade de São Paulo.
Naquele ano, a capital tinha uma rede de metrô concentrada em quatro linhas, os corredores de ônibus ainda estavam em construção, e a rotina da população era marcada por encontros presenciais, sem aplicativos de transporte, redes sociais ou smartphones como hoje em dia.
Passadas mais de duas décadas, a cidade ganhou novas linhas de metrô, ampliou corredores e faixas exclusivas para ônibus, viu bairros se transformarem, ganhou novos espaços esportivos, como a Neo Química Arena (popularmente conhecida como Itaquerão), e passou por um processo acelerado de digitalização da vida cotidiana.
Ao mesmo tempo, desafios históricos, como trânsito, desigualdade urbana e dificuldades de deslocamento continuam presentes.
Para o arquiteto e urbanista Roberto Loeb (co-fundador do Instituto Anchieta Grajaú), a São Paulo de 2002 refletia um período em que o carro tinha um papel ainda mais central na vida dos moradores. “Naquela época você ter um carro era essencial. Continua sendo, mas naquela época você não tinha Uber, você não tinha aplicativos de transporte, você usava o táxi”, lembra.
Segundo ele, o acesso ao transporte público também era mais limitado. “Quanto ao transporte público era muito complicado. Você também não tinha um acesso fácil, as linhas de ônibus eram difíceis de acessar.”
Loeb afirma que a cidade passou por importantes transformações urbanas desde então, com a consolidação de novos polos de desenvolvimento, como as regiões da Berrini e da Faria Lima. Apesar disso, avalia que o crescimento imobiliário não foi acompanhado por melhorias equivalentes no espaço público.
“A cidade cresceu para coisas melhores, mas ela não prestou atenção na vida das pessoas de todos os gêneros e idades”, diz. “Os mais prejudicados são as pessoas idosas ou que têm dificuldade de mobilidade.”
Neo Química Arena, palco da partida entre Corinthians x Ponte Preta
Gabriel Oliveira
Início da construção do estádio do Corinthians, em Itaquera, em 2016
Letícia Macedo / G1
Mais trilhos e corredores de ônibus
Infográfico - Como eram os trilhos em SP no ano do penta?
Arte/g1
Em 2002, o Metrô de São Paulo operava quatro linhas: 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e a então recém-inaugurada 5-Lilás. A rede tinha 57,6 km de extensão e 52 estações, transportando cerca de 2,5 milhões de passageiros por dia útil.
Hoje, o sistema conta com sete linhas em operação, incluindo a 4-Amarela e dois ramais de monotrilho. A rede ultrapassa 110 km de extensão e soma 98 estações.
Além da expansão física, houve modernização tecnológica, com novos sistemas de sinalização, trens com ar-condicionado, portas de plataforma e ampliação das formas de pagamento e acessibilidade.
Além da expansão do Metrô, a rede de trens metropolitanos também passou por mudanças significativas. Em 2002, a CPTM operava seis linhas — atuais 7, 8, 9, 10, 11 e 12 —, com 251 km de extensão, 84 estações e uma média de 1,05 milhão de passageiros por dia útil.
Ao longo das últimas duas décadas, o sistema recebeu investimentos em modernização da infraestrutura, renovação da frota e ampliação da acessibilidade.
No período, foram construídas 16 novas estações, incluindo as ligadas à implantação da Linha 13-Jade, que conectou a capital a Guarulhos, e à extensão da Linha 9-Esmeralda até Varginha. Outras 30 estações foram reconstruídas, além da realização de intervenções de acessibilidade em 18 paradas.
A rede também passou a contar com serviços como o Expresso Linha 10 e o Expresso Aeroporto, além da ampliação das linhas 11-Coral e 13-Jade até a Estação Palmeiras-Barra Funda.
No transporte por ônibus, a mudança também foi significativa. Em 2002, a cidade tinha quatro corredores exclusivos, com 29 km de extensão. Atualmente, são 13 corredores, totalizando 135,3 km.
Trem da Linha 5-Lilás da ViaMobilidade
Divulgação/Viamobilidade
As faixas exclusivas também cresceram. Eram cerca de 90 km há 24 anos e hoje chegam a 590,4 km. Somados, corredores e faixas exclusivas alcançam 725,7 km.
Atualmente, 1.330 linhas municipais transportam, em média, 7 milhões de passageiros por dia útil.
Outra mudança ocorrida envolvendo o transporte de ônibus e trem foi a implementação do cartão municipal recarregável Bilhete Único, lançado durante a gestão da então prefeita Marta Suplicy (PT), e novas formas de pagamento, com a aceitação de cartões bancários por aproximação, cartão TOP e QR Code.
Apesar dos avanços, Loeb avalia que os investimentos ainda não foram suficientes para acompanhar o crescimento da cidade. “O trânsito é um problema muito alarmante. A cidade evoluiu em muitas questões, mas as vias não evoluem na mesma velocidade”, afirma.
Estação Adolfo Pinheiro, da Linha 5-Lilás do Metrô, quando foi inaugurada, em 2014
Márcio Pinho / G1
Uma cidade menos digital
Se a mobilidade mudou, o comportamento dos paulistanos também passou por uma transformação profunda.
O sociólogo Rene Araújo, professor de Sociologia do Curso Anglo, formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que a principal diferença entre 2002 e os dias atuais está na digitalização das relações sociais.
“A esfera virtual passou a ter um protagonismo e passou a ocupar uma parte significativa das nossas interações, algo que em 2002 nem existia”, afirma.
Na época do pentacampeonato, lembra o pesquisador, era comum reunir familiares, amigos e vizinhos em frente à televisão para acompanhar os jogos.
“As pessoas estavam mais habituadas ao contato físico, presencial, de diálogo, de interação. Hoje as pessoas estão com um olho na TV e o outro no smartphone.”
Segundo Araújo, tradições ligadas à Copa permanecem, mas perderam parte da intensidade observada no início dos anos 2000.
“Hoje a gente observa ainda uma certa tradição de as pessoas pintarem a rua, enfeitarem a rua, algo que em 2002 foi muito mais intenso.”
Para ele, as mudanças refletem uma transformação mais ampla na forma como os moradores vivenciam a cidade.
“São Paulo já era, em 2002, essa cidade que nunca para, mas isso se intensificou. A gente está em meio a um cenário de imediatismo. Tudo é para agora.”
Outro fator que mudou o comportamento de parte da população foi a implementação da Lei Estadual Antifumo, que passou a proibir o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos e outros produtos fumígenos em ambientes de uso coletivo, públicos ou privados.
A medida está prevista na Lei nº 13.541, de 7 de maio de 2009, sancionada pelo então governador José Serra (PSDB). Com a entrada em vigor da norma, ficou proibido fumar em locais fechados de uso coletivo, como bares, restaurantes, casas noturnas, centros comerciais e ambientes de trabalho.
A lei também determinou que os responsáveis pelos estabelecimentos deveriam afixar avisos sobre a proibição e adotar medidas para garantir o cumprimento das regras. Um mês após o início da fiscalização, o governo estadual informou que 99,5% dos estabelecimentos vistoriados estavam adequados à legislação.
A mudança aconteceu sete anos após a conquista do penta, o que mudou a forma de assistir aos jogos de futebol pela cidade. Quem ainda consome cigarros e suas variações pode fumar do lado de fora dos estabelecimentos, o que também fez com que os estabelecimentos ampliassem as áreas livres, ocupando parte das calçadas.
O que permaneceu?
Apesar das mudanças, alguns elementos seguem fazendo parte da experiência paulistana durante uma Copa do Mundo. Um deles é a troca de figurinhas entre crianças e adolescentes, tradição que atravessou gerações.
“As crianças se encontram em grupos, em festas, elas sempre têm no bolso um maço de figurinhas [risos].”
Araújo concorda, mas observa que a prática também mudou. “Se antes você tinha um acesso mais democrático ao consumo das figurinhas, pelo preço não ser tão elevado, hoje elas se tornaram muito mais custosas”, avalia.
Outro aspecto que permanece é o sentimento de união provocado pela seleção brasileira.
“A Copa do Mundo se constitui em torno dessa ideia de união. Ela faz com que os símbolos, as cores, o hino e o desejo de se sagrar campeão superem aquelas diferenças que nos acompanham durante o restante do ano”, completa o sociólogo.
Para ele, mesmo em uma sociedade mais polarizada e individualizada, o torneio ainda é capaz de criar laços coletivos.
“Durante aquele período, os indivíduos deixam algumas diferenças um pouquinho mais de lado. O sentimento de pertencimento fica muito mais aflorado.”
Menos crianças, mais idosos
Outra transformação importante foi a mudança no perfil demográfico da cidade. Segundo Araújo, São Paulo segue uma tendência observada em outras grandes metrópoles, com redução da natalidade e envelhecimento da população.
“As pessoas estão tendo menos filhos e estão morando em espaços menores”, afirma.
Ele avalia ainda que isso também altera a forma como a cidade vive grandes eventos esportivos. “Em 2002, as crianças ocupavam as ruas. Eu me lembro de colegas comemorando depois dos jogos, brincando e jogando bola. Isso é algo que, naquela intensidade, não ocorre mais.”
Mesmo nas periferias, onde ainda há mais ocupação dos espaços públicos por crianças e jovens, o pesquisador observa uma redução gradual desse movimento.
Ao olhar para a cidade que comemorou o pentacampeonato e compará-la à de hoje, os especialistas veem uma São Paulo mais conectada, mais extensa e com mais opções de mobilidade. Mas também uma cidade que continua convivendo com velhos desafios.
“São Paulo continua sendo uma capital extremamente dinâmica e repleta de problemas”, resume Araújo.